Férias dentro de si

Depois de um ano e meio morando fora, viajei com meu marido e minha filha de 9 meses para o Brasil, de férias, por duas semanas. Fiquei hospedada na casa dos meus sogros, e diariamente convivi com as famílias de ambos os lados. Revi muitos amigos de longa data e pessoas da família extendida. A experiência foi muito gratificante, mas ao mesmo tempo, contrastou bastante com o ritmo normal da minha vida nos últimos tempos, um ritmo mais calmo, que também aprecio.

Aqui em Londres meu dia-a-dia é bastante calmo: acordo cedo, junto com a bebê, tomo café da manhã, me despeço do meu marido, que sai cedo para o trabalho, e passo o dia todo, até a volta dele, nos afazeres domésticos e cuidados maternos, intercalados com leituras e alguns compromissos esparsos fora de casa. Às noites costumo ir me exercitar na academia – até prefiro o ar livre, mas o horário e o frio não estimulam – e nos fins de semana, gostamos de ficar tranquilos em casa para descansar um pouco – meu marido do ritmo frenético de quem trabalha fora numa cidade grande; e eu das funções domésticas e maternas, as quais posso dividir com ele quando está em casa.

Eu já imaginava, portanto, que depois dessas duas semanas de intenso convívio social e saídas diárias para resolver uma infinidade de detalhes terrenos, o contraste ao entrar porta adentro na nossa casa aqui em Londres seria impactante. Não sabia se de uma forma feliz ou triste, afinal férias costumam deixar saudades. Para minha boa surpresa, e sem com isso implicar que as férias não tenham sido boas, chegar em casa trouxe uma sensação de descanso.

Não só da viagem – sempre desgastante para quem não dorme um minuto sequer ao longo das cerca de 24 horas de translados, conexões e vôos – mas de toda essa atmosfera “ocupada”. A verdade é que essas férias deram um bom trabalho! Desde o planejamento e execução da viagem com uma bebê pela primeira vez até toda a lista de coisas que levamos para resolver no Brasil, como banco, médico, cartório e contador. Foram duas semanas visitando esse tipo de lugar quase diariamente. Além disso, organizamos um café para cerca de cinquenta pessoas, pois com o nascimento de nossa filha, muitos queriam conhecê-la. Foi muito bom porque aproveitamos para dar um abraço gostoso em pessoas queridas que não víamos há tempos. O evento em si foi bem simples e contamos com a ajuda de muitas pessoas para organizar; mesmo assim, de certa forma imprimiu um ritmo ainda mais acelerado a essas já bem ocupadas férias.

Nosso pequeno apartamento aqui em Londres fica numa área silenciosa da periferia. Dele se ouve apenas um ruído leve de carros e trens passando, além dos pássaros locais (corvos, robins e magpies) e pedestres ocasionais caminhando em direção ao metrô mais próximo. As cercanias têm pouco comércio e muitas casas, e por isso não se vê muitas pessoas pelas ruas. A área tem um jeito silencioso e familiar, no qual me sinto confortável e um pouco mais eu mesma. Assim que cheguei em casa, portanto, fui lembrada do quanto gosto dessa tranquilidade que a vida aqui tem me proporcionado.

Fiquei pensando em como é importante, em qualquer contexto, ter tempo e espaço (físico, energético, emocional e mental) para centrar no silêncio de si mesmo. No contexto das últimas férias ficou mais difícil garantir esse espaço, pois a balança pendeu quase totalmente para o lado da sociabilidade. Já nos primeiros momentos silenciosos durante o vôo transatlântico do retorno eu voltava a me sentir mais quem realmente sou: foi só ali que consegui olhar algumas páginas de um bom livro que tinha levado para ler, e escutar algumas músicas que tinha gravado para a viagem. Passei boas horas admirando a infinita beleza do firmamento estrelado sobre o oceano profundo, e a linda mudança de cores ensejada pelo dançar do sol no horizonte. Esse tipo de alimento etéreo, que só se consegue nos momentos de silêncio e paz, é essencial para a sobrevivência e saúde da alma.

O que ficou das férias foi, então, além da resolução de problemas mundanos, da alegria dos reencontros e da gratidão pelo carinho recebido, a percepção da importância de se alternar o estar com os outros com o estar consigo. Pois é apenas no espaço interno de si que podemos encontrar a fonte divina de energias verdadeiramente renovadoras, aquelas que possibilitam uma caminhada mais equilibrada e proveitosa pelo mundo.

Gilbert Williams painting