Tempos prosaicos

A vida tem andado bastante prosaica. Bem trivial e pé no chão mesmo. Efeito colateral de ser mãe de bebê que está crescendo, acho. Diferente de quando ela era recém-nascida, quando dormia por boa parte do dia e quando eu, mesmo cansada, dava conta de ler mais, escrever mais, pensar em outras coisas não relacionadas ao universo materno-infantil. Mas hoje, por estar ajudando a bebê com transições importantes como a da alimentação sólida e a do sono noturno em quarto próprio, meus dias têm girado em torno das necessidades dela, da casa, da família.

Não estou reclamando: entendo que é um estado de coisas necessário para dar conta da enorme tarefa que é maternar. Mas ao mesmo tempo, de vez em quando bate uma frustração com a dificuldade de cultivar estados conscienciais mais elevados, descolados do mundo material – experiências espirituais, meditação, trabalhos com energia. Não que seja dicotômico – espiritualidade real é viver consciente em meio às tarefas mundanas e reconciliar-se com elas – mas cá entre nós, enxergar poesia no aroma das fraldas sujas ou fazer concentrações e visualizações depois de um dia cheio, enquanto rola de fundo o ruído da babá eletrônica, no suspense que antecede o choro pedindo colinho, é bem difícil. Mal consigo relaxar – que seria o primeiro passo para um trabalho energético e mental -, quem dirá fazer grandes coisas além disso.

Há quem padeça da mesma dificuldade por motivos diferentes: um trabalho demandante e pouco inspirador, uma carência material ou de saúde que exige foco prioritário, uma vicissitude mundana qualquer que se imponha como prioridade às atividades elevadas. Escrevi antes – e acredito nisso – que por mais difíceis que sejam as circunstâncias, é possível e até vital elevar o espírito para além delas, mas o fato é que há períodos na vida em que as janelas poéticas e espirituais parecem simplesmente fechadas. Estou atravessando um desses períodos.

A experiência não me chegou como surpresa. Já antes de engravidar eu sabia que andava avoada demais, muito rebelde com os grilhões da vida terrena, desinteressada no dia a dia, com a balança pendendo muito para ideais irrealizáveis, e constantemente sendo avisada em sonhos e sinais de que era preciso esquecer um pouco as estrelas e viver mais a vida com o pé no chão, no lento ritmo da terra. Minha própria integridade física e psicológica dependiam desse “pouso”. É um aprendizado necessário na minha jornada, que se anunciava há tempos, e que eu, através de decisões e atitudes, aceitei, ainda que com alguma resistência.

Então, nesse momento da vida estou tendo muito menos tempo e foco do que eu gostaria para cultivar estados de elevação da consciência. O prosaísmo do dia a dia têm me tirado quase por completo a ligação com coisa poéticas, filosóficas e espirituais. Tenho até escrito menos aqui por causa disso. A exceção fica por conta de algumas leituras que teimo em encaixar nos pequenos intervalos em que a bebê dorme e eu não, e de um certo olhar que procuro direcionar às coisas belas – como a própria vida da bebê se desdobrando à minha frente, um pouco de arte e música, a lua e o céu estrelado, ou as plantas e os jardins que estão lindos agora na primavera.

Estou procurando aprender com essa fase prosaica e curtir as alegrias que lhe são próprias. Sinto falta, confesso, do outro lado da balança, mas estou sem muita possibilidade de mudar o quadro por enquanto. E rumando, espero, para um maior equilíbrio das coisas numa fase vindoura da vida.

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