Sobre o cuidado

Cuidado. Interesse, amparo, zelo, desvelo.

Atividade explícita e implícita que se compõe de várias pequenas e grandes intenções, atitudes e gestos. Embora às vezes imperceptível ao olhar externo, sua presença ou ausência é sempre agudamente sentida pelos envolvidos na relação de cuidado.

Vibração feminina e maternal, pode ser exercida por homens e mulheres, sejam eles pais biológicos ou não.

Quem ama cuida do que é amado. Familiares, cônjuges e amigos cuidam uns dos outros. Cuidamos de nós mesmos. Cuidamos de tudo aquilo que nos é caro, desde objetos até pessoas e ideais.

O cuidado preserva e promove a vida. É sentimento nobre, e em tempos de individualismo exacerbado, precisa ser cultivado nas esferas pessoais e coletivas. Vale cuidar de muitas coisas – pertences, plantas, animais, meio ambiente, relacionamentos, grupos, projetos. Cada relação de cuidado é uma oportunidade de exercer a entrega do que se tem de melhor a um outro; uma oportunidade de doar amor.

Em condições normais de “temperatura e pressão”, o cuidado precisa ser equilibrado com o incentivo à independência, pois os subprodutos do seu excesso são o sufocamento, o apego e a dependência doentia. Assim, um filho amado não pode ser excessivamente cuidado, sob o risco de ter a sua capacidade de desenvolver a autonomia severamente prejudicada. Pessoas que se amam precisam constantemente equilibrar a manifestação do cuidado com o respeito às individualidades. Pacientes precisam de acolhimento, mas objetivam seguir a vida sem necessidade da terapia. Grupos sociais vulneráveis precisam de assistência, mas têm sua liberdade maculada com o paternalismo. Projetos precisam de dedicação perseverante para se materializarem, mas é necessário saber improvisar e seguir em frente quando os planos não dão certo.

Já quando há condição de maior vulnerabilidade, o cuidado precisa ser redobrado. Um objeto desgastado, um corpo doente, uma alma ferida, um relacionamento fragilizado ou um ideal ameaçado por circunstâncias desfavoráveis se beneficiam de um cuidado mais intenso. Precisam de uma dose extra de atenção e de energia amorosa para conseguirem se reestabelecer.

A experiência de ser preenchido pelo amor e pelo cuidado estabiliza o ser, abrindo espaço para que ele desenvolva maior sensibilidade às fragilidades alheias. Uma vez cuidados, nos sentimos relativamente inteiros, quando não transbordantes, e passamos a ter a necessidade de cuidar também, para retibuir e propagar o bem que nos foi feito. O ímpeto do cuidador só se apazigua com a emancipação alheia, quando o cuidado que antes era demandado pode até continuar sendo bem-vindo, mas deixou de ser necessário.

Por isto, os que se sentem bem amados querem cuidar, e até mesmo se frustram por não poderem se fazer presentes em todas as situações que requerem e merecem o cuidado que agora também têm para dar. As restrições para a partilha do amor trazem, porém, o importante aprendizado da compreensão dos limites existentes para atuação de cada um no mundo. Não se pode cuidar de todos que precisam, o tempo todo, em todo lugar.

A onipotência é reservada a um Poder Maior. A nós, humanos, parciais e falíveis, cabe a tarefa de de estabelecer as prioridades corretas, repousando nosso amor nos lugares e situações de menor escala, onde ele conseguirá fazer uma maior diferença. Entregar todo o resto, o que não se alcança, nas mãos deste Poder que nos transcende, é demonstração de maturidade e exercício de fé.

Pietà di Michelangelo