Os Doze Curadores e Outros Remédios: tradução para o Português

Passei os últimos dias de 2013 e os primeiros de 2014 envolvida com um projeto de tradução, do Inglês para o Português, da edição definitiva do livro “Os Doze Curadores e Outros Remédios“, de Edward Bach, cujo original data de 1941.

Os Doze Curadores é um livro base para entender o famoso sistema de florais de Bach, pois contém a descrição original de cada um dos 38 remédios herbáticos e explica o método de fabricação dos florais. Esta edição definitiva, editada em 2011 pelos atuais guardiões do legado do Dr. Bach, tem a preocupação de manter a fidedignidade à escrita original, pois, sendo antiga, foi por muitas vezes modificada, gerando possíveis variações de entendimento ao longo dos anos. Já havia sido traduzida para muitas línguas, mas curiosamente, apesar de haver um bom potencial público brasileiro, não para o Português.

Minha relação com o Bach Centre e o universo dos florais se iniciou com minha ida à sede para cursar o primeiro nível de formação do sistema, uma experiência fascinante que relatei aqui. Desde então tenho experimentado os florais de Bach em mim mesma e em pessoas próximas (obrigada, minhas queridas cobaias), além de ter lido e pesquisado um pouco mais sobre o trabalho do médico e homeopata Dr. Edward Bach.

Há muitas coisas que me encantam no seu trabalho, a começar pela trajetória do doutor: um médico que abandonou título, fama e grana para seguir seu coração e intuição. A simplicidade e generosidade do seu trabalho – atendia de graça e vivia na pendura, alugando com dificuldade a casa e fazendo os próprios móveis com madeira local – persistem até hoje, na forma como as plantas são cuidadas, na equipe pequena e super disponível, na simplicidade dos móveis, nos preços acessíveis dos cursos e simbólicos dos souvenirs. O centro em si, a antiga casa onde o Doutor morava e atendia, é um lugar lindo, simples, energizado e maravilhoso. Quem o visita sai com as energias renovadas.

O link para dowload da Edição Definitiva de Os Doze Curadores e Outros Remédios em Português pode ser encontrado neste link do site do The Bach Centre. O arquivo pode ser repassado, linkado e compartilhado nas redes sociais de forma livre e gratuita, desde que mantido sem nenhuma alteração.

Foi uma sorte e um privilégio poder trabalhar nesta tradução. Foram dias prazerosos de contato próximo com a filosofia do Dr. Bach e com a energia das flores, que tanto bem fazem à humanidade, por graça e generosidade do criador de todas as coisas.

Os Doze Curadores Florais Bach

Na trilha do autoconhecimento

Quando a gente se muda para longe é comum que a casa dos pais, na cidade de origem, se transforme num depósito provisório daquelas coisas que “são minhas, quero guardar, mas quando eu tiver espaço eu levo”. De vez em quando bate uma saudade desses objetos (no meu caso fotos, CDs e livros). Esse é o caso do meu álbum de formatura, que já conta onze anos de idade.

Esses dias pedi para a minha irmã escanear e me mandar uma das fotos desse álbum. Essa foto por muito tempo me foi tida como uma das que eu mais gostava, e eu queria agora, alguns anos mais tarde, dar mais uma olhadinha nela.

Que surpresa foi rever essa foto. Em outro post eu comentei sobre o efeito de reversão do registro que uma foto antiga ressucitada pode provocar. Naquele caso, uma foto da adolescência me fez perceber que naquela época havia mais momentos felizes do que eu atualmente lembrava. No caso dessa foto de formatura, aconteceu justamente o contrário.

A foto, do exato momento do juramento da profissão, simbolizava uma realização por anos ansiada, um momento de vitória, de conquista, de orgulho, de iniciação. Eu estava entrando para um seleto clube ao qual eu sempre quis pertencer, o de psicólogos avalizados. De fato, logo após receber o diploma fui abraçada calorosamente por um professor que me saudou literalmente assim: “seja muito bem vinda ao clube”. Eu estava recebendo a sanção social e dos pares para ocupar um lugar de referência quanto aos assuntos do autoconhecimento. Eu estava no topo do meu mundo particular.

Mas, estranho, eu costumava gostar bem mais dessa foto. Na verdade, eu era apaixonada por ela. E agora, ela me evocava um sentimento diferente. Nela, eu agora via uma espécie de vazio no meu olhar. E inevitavelmente veio a pergunta: o que mudou?

Mudou a minha compreensão do que seja realmente possível na esfera do conhecer-se e, ainda mais complicado, ajudar alguém a se conhecer melhor também. Não é um caso – como eu ingenuamente pensava à época – de acumular conhecimento na sua própria cabeça para depois destrinchar o funcionamento de outras, e assim descobrir alguma luz que guiasse a todos pelos melhores caminhos. O autoconhecimento é um processo ainda muito misterioso, o mais de todos, como muito bem colocado num texto legal de Paul Brunton que recebi esses dias de um amigo. Não é de uma pretensão enorme atribuir a si mesmo o direito comercial e exclusivo de dizer verdades, ainda que relativas ou contextualizadas sob a sua limitada percepção, sobre as coisas da alma humana?

Ao mesmo tempo, autoconhecimento continua parecendo ser a chave para uma vida mais feliz. Há um valor em persegui-lo, mas o problema é o sentimento de “clube dos autorizados”. Nossos sonhos de maestria são patéticos nessa área, onde – hoje percebo – os mais sábios são aqueles que com o passar do tempo mais estupefatos ficam com a própria pequenez diante da vastidão do que desconhecemos.

A foto do olhar orgulhoso, vazio de amor real e cheio de ego, felizmente amarelece com o passar do tempo e esvaece com a experiência de vida. De todo esse universo “formatural” há, no entanto, um objeto que ainda guardo com carinho: o anel, presenteado por minha mãe. O círculo de ouro, cinzelado com um animal de visão noturna, um símbolo grego para a alma, e uma pedra lapis lazuli cravada no topo, representa, ainda, o espírito das coisas que mais me enternecem, movimentam e vitalizam nessa jornada terrestre. A diferença é que agora percebo um pouco mais claramente a insignificância dos meus passos, claudicantes sob uma luz maior, que é a verdadeira força motriz de todas as coisas.

anel formatura psicologia

As seis formas Gregas de amar

Sabe quando você se depara com um artigo que te faz pensar “puxa, eu queria ter escrito isso!”? Pois bem, aconteceu comigo hoje quando li “Have You Tried the Six Varieties of Love?” de Roman Krznaric. Claro que eu não teria o mesmo conhecimento nem o mesmo estilo elegante de escrever, mas além de o texto ser sobre um tema muito caro ao meu coração – o amor! –, é de um insight tão legal que me senti compelida a traduzir para o Português. Quem sabe assim eu esteja contribuindo para a difusão dessas belas ideias entre os amigos e leitores lusófonos? Então lá vai.

Você já Experimentou as Seis Variedades de Amor? – por Roman Krznaric

A cultura do café dos dias de hoje tem um vocabulário incrivelmente sofisticado. Você quer um cappuccino, um espresso, um skinny latte ou talvez um iced caramel macchiato? Os Gregos antigos eram igualmente tão sofisticados na forma com que falavam sobre amor, reconhecendo seis diferentes variedades. Eles teriam ficado chocados com a nossa crueza em usar uma única palavra para sussurrar “eu te amo” num jantar à luz de velas e casualmente assinar um email com “muito amor”.

Então quais eram os seis amores conhecidos dos Gregos? E como eles podem nos inspirar a movermo-nos para além de nosso atual vício no amor romântico, que faz com que 94 por cento das pessoas jovens esperem – mas frequentemente fracassem – encontrar uma alma gêmea única que possa satisfazer todas as suas necessidades amorosas?

Eros: O primeiro tipo de amor era eros, nomeado por causa do deus Grego da fertilidade, e representava a ideia de paixão sexual e desejo. Mas os Gregos não pensavam nele como algo sempre positivo, como tendemos hoje. Na verdade, eros era visto como uma forma perigosa, ardente e irracional de amor que poderia dominar e possuir você – uma atitude compartilhada por muitos pensadores espirituais mais tardios, como o escritor Cristão C.S.Lewis. Eros envolvia uma perda de controle que assustava os Gregos. O que é estranho, porque perder o controle é precisamente o que muitas pessoas agora procuram em um relacionamento. Não esperamos, nós todos, apaixonar-nos “loucamente”?

Philia: A segunda variedade de amor era philia ou amizade, que os Gregos valorizavam muito mais do que a sexualidade baixa de eros. Philia abrangia a amizade camarada profunda que se desenvolvia entre irmãos em armas que haviam lutado lado a lado no campo de batalha. Tinha a ver com demonstrar lealdade aos seus amigos, sacrificando-se por eles, assim como dividir suas emoções com eles. (Uma outra forma de philia, às vezes denominada storge, incorporava o amor entre pais e seus filhos.) Todos podemos nos perguntar quanto deste amor philia camarada temos em nossas vidas. É uma questão importante em uma era em que tentamos acumular “amigos” no Facebook ou ‘seguidores’ no Twitter – conquistas que dificilmente teriam impressionado os Gregos.

Ludus: Esta era a ideia dos Gregos de amor divertido, que se referia à afeição divertida entre crianças ou jovens amantes. Todos tivemos um gosto dele no flerte e provocação nos estágios iniciais de um relacionamento. Mas também vivenciamos nosso ludus quando sentamos em roda em um bar contando piadas e rindo com amigos, ou quando saímos para dançar. Dançar com estranhos pode ser a mais fundamental atividade lúdica, quase um substituto divertido para o sexo em si. As normas sociais torcem o nariz para esse tipo de frivolidade adulta divertida, mas um pouco mais de ludus pode ser justamente o que precisamos para apimentar nossas vidas amorosas.

Agape: O quarto amor, e talvez o mais radical, era ágape ou amor abnegado. Este era um amor que você estendia a todas as pessoas, seja membros familiares ou estranhos distantes. Agape foi mais tarde traduzido para o Latim como caritas, que é a origem da nossa palavra caridade. Lewis referia-se a ele como “amor presente”, a mais alta forma de amor Cristão. Mas ele também aparece em outras tradições religiosas, como a ideia de mettā ou “bondade amorosa universal” no Budismo Theravāda. Há evidências crescentes de que agape está em perigoso declínio em muitos países. Níveis de empatia nos E.U.A. caíram quase 50 por cento ao longo dos últimos 40 anos, com a queda mais acentuada ocorrendo na década passada. Precisamos urgentemente renovar nossa capacidade de nos preocuparmos com estranhos.

Pragma: Outro amor Grego era pragma ou amor maduro. Este era o profundo entendimento que se desenvolvia entre casais de longo casamento. Tinha a ver com fazer acordos para ajudar o relacionamento a funcionar ao longo do tempo, e demonstrar paciência e tolerância. O psicanalista Erich Fromm disse que gastamos muita energia “caindo na paixão” e precisamos aprender mais como “ficar de pé no amor”. Pragma tem precisamente a ver com ficar de pé no amor – fazer um esforço para dar amor ao invés de apenas recebê-lo. Com as taxas de divórcio atualmente na casa dos 50 por cento, os Gregos certamente pensariam que deveríamos trazer uma dose séria de pragma para nossos relacionamentos.

Philautia: A variedade final de amor era philautia ou auto-amor. Os espertos Gregos perceberam que havia dois tipos. Um era uma variedade não saudável associada com narcisismo, onde você se tornava obcecado consigo, e focado em ganhar fama pessoal e fortuna. Uma versão mais saudável de philautia elevava a sua capacidade mais ampla de amar. A ideia era que se você gosta de si mesmo e se sente seguro em si mesmo, você terá amor suficiente para dar aos outros (hoje isto é refletido no conceito inspirado no Budismo de “auto-compaixão”). Ou como disse Aristóteles, “Todos os sentimentos amigáveis por outros são uma extensão dos sentimentos do homem por si mesmo”.

Então o que os Gregos estão realmente tentando nos dizer? De forma mais impressionante, eles encontraram diversos tipos de amor em relacionamentos com uma ampla gama de pessoas – amigos, família, esposas, estranhos e até mesmo com si mesmos. Isto contrasta com o nosso típico foco em uma única relação romântica, onde esperamos encontrar todos os diferentes amores empacotados em uma única pessoa ou alma gêmea. A mensagem dos Gregos é para alimentar as variedades de amor e conectar-se às suas muitas fontes. Não procure apenas eros, mas cultive philia passando mais tempo com velhos amigos, ou desenvolva o seu ludus dançando noite afora.

Ademais, deveríamos abandonar nossa obsessão com a perfeição. Não espere que seu parceiro lhe ofereça todas as variedades de amor, o tempo todo (sob o risco de você poder negligenciar um parceiro que falhar em atender aos seus desejos). Reconheça que um relacionamento pode começar com bastante eros e divertido ludus, e então evoluir rumo a incorporar mais pragma ou agape abnegado.

Há também o pensamento consolador de que se você sente a falta de um amante em sua vida, ao mapear a extensão na qual todos os seis amores estão presentes, você poderá descobrir que tem muito mais amor do que jamais imaginou.

É hora de introduzirmos as seis variedades de amor Grego em nosso vocabulário cotidiano. Desta forma nos tornaremos tão sofisticados na arte de amar como somos quando pedimos uma xícara de café.

Roman Krznaric. É um pensador cultural Australiano e co-fundador da The School of Life em Londres. Este artigo é baseado no seu novo livro, How Should We Live? Great Ideas from the Past for Everyday Life (BlueBridge).www.romankrznaric.com @romankrznaric

agape love

Tudo pela primeira vez

Que coisa fantástica é (re)nascer num corpo novinho em folha. Desde a junção das duas células na fecundação até algum ponto indeterminado da vida adulta, todas as experiências se nos passam como uma primeira vez. Os primeiros órgãos formados, a primeira separação, a primeira respiração, o primeiro choro, o primeiro colo, o primeiro remédio, a primeira injeção, a primeira mamada, o primeiro olhar, a primeira saída na rua, a primeira risada, a primeira rolada, a primeira sentada, a primeira queda…

Qual é o ponto da vida em que as coisas deixam de nos parecer primeiras e passam a ser sentidas como uma repetição do mesmo?

Se prestarmos bem atenção, aquilo que parece se repetir, na verdade, está sempre acontecendo pela primeira vez. A cada dia em que acordamos, tudo e todos se desdobram à nossa frente de forma viva e inédita.

O que é velha e viciada é a nossa forma de olhar a vida. A imprevisibilidade do segundo seguinte assombra o nosso pequeno ego controlador, mas – ainda bem – a vida é maior e mais surpreendente do que este nosso olhar estagnado e estagnante.

Não há nada mais refrescante e renovador do que perceber isto, ainda que apenas por um breve momento. É a vertigem da impermanência, que quando profundamente compreendida, coloca no rosto dos sábios um sorriso sereno e permanente.

Como dizia Heráclito, vida é eterno movimento. Como disse Chico Xavier, “isso também passa”. Como se diz no budismo, tudo é impermanência. Sempre que nos apegarmos às nossas certezas e pautarmos nossas ações apenas por elas, estaremos nos transformando naquela moça acuada no canto do salão, triste, se perguntando por que é que não vieram tirar ela para dançar.

Já quando reconhecemos que tudo está aberto e sujeito à renovação, passamos a nos sentir mais acordados, assim como são as crianças. E dançamos, agradecidos, uma bela dança, em par com a vida que nos foi presenteada.

buddha awakening