O fim de ano de dentro

A chegada ao final de mais um ano do calendário humano estimula as reflexões e os balanços, como é característico de todo fim simbólico. Meu tema pessoal para balanço este ano é o silêncio interior.

Em tempos de internet, o ruído anda muito alto. Mas não dá para culpar nenhum objeto externo: o que está fora só reflete o que está dentro. É por dentro que a reforma se faz necessária.

Aos períodos de fome por estímulos seguem-se os de fastio. À busca desenfreada por ruídos segue-se a fadiga mental e emocional.

E nasce assim o anseio pelo silêncio. É como diz o poeta:

Estou cansado de falar,
De falar com os homens,
De falar comigo mesmo
Estou cansado até de falar com Deus…
Todas as minhas perguntas,
Ruidosas,
Insistentes,
Sangrentas,
Esbarram sempre com muralhas de granito,
Resvalam sempre de paredes marmóreas,
Agonizam sempre, exaustas, sem resposta…
Por que todo esse falar?
Esse intérmino interrogar?
Esse estéril pesquisar?
Resolvi substituir o ruidoso falar
Pelo silencioso calar.
O ruído é dos homens,
O silêncio é de Deus.

O poema – Anseio do Silêncio, de Huberto Rohden – continua, mas eu o reproduzo só até este ponto, porque diferente do autor, ainda não “convalesci da enfermidade dos ruídos para a grande sanidade do silêncio”. Então deixo aqui esta nota mental, para não esquecer da necessidade de avançar neste sentido.

Deixo também o desejo de que mais silentes, possamos ser mais felizes.

Um feliz fim de ano a todos.

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Entre o céu e a terra

Com o tempo livre mais escasso, tenho priorizado as atividades de que mais gosto e tentado encaixá-las ao redor da agenda da bebê. Essa organização forçada pela compressão do tempo livre é um fenômeno bem conhecido de quem trabalha fora ou é muito ocupado, e não raro resulta num ritmo de realização geral mais acelerado.

No topo da lista das atividades preferidas que estão ao meu alcance no contexto de hoje estão as leituras. Sempre com bem mais livros para ler do que efetivamente lidos, essa lista a toda hora se renova, cresce e nunca será vencida. Os homens e mulheres de hoje têm à disposição uma fonte inesgotável de alimento para a alma!

Essa infinitude costumava me assustar e desencorajar, mas agora, ocupando o papel principal de mãe e com uma auto-expectativa de realização intelectual mais baixa, tenho conseguido consumir mais livros. Meus assuntos favoritos – espiritualidade, filosofia/psicologia, e eventualmente poesia – garantem um bom contraste com o trocar de fraldas e a interação física que uma bebezinha de quatro meses requer.

O problema de algumas dessas leituras é que elas às vezes são um gatilho para um modo muito aéreo e alheio à concretude do mundo ao meu redor.

Essa semana mesmo, por exemplo, depois de ler à tarde alguns capítulos da biografia de um líder espiritual hindu que frequentemente entrava em estado de samadhi, saí à noite até o shopping centre mais próximo de casa, onde fica a academia que voltei a frequentar. O contraste entre a tarde quieta – quase meditativa – e aquelas luzes do comércio natalino, o furor dos consumidores, e até mesmo o empenho das pessoas em disciplinar o corpo físico na academia foi bem intenso. Me senti “desencaixada”, como se estivesse andando dentro de um sonho brumoso (pra completar o clima, a noite estava brumosa!), irreal e arrastado, pois meus pensamentos continuavam com o livro, que eu teria preferido continuar lendo ao invés de “sair pro mundo”.

Essa sensação, à qual estão propensos os mais sonhadores (embora possamos nos perguntar o que é sonho e o que é realidade), além de estranha é perigosa, porque, uma vez no mundo, você precisa prestar atenção no que está fazendo, onde está pisando, cuidar dos seus pertences, etc. Nos últimos meses, por exemplo, já perdi misteriosamente três objetos de valor enquanto andava na rua, tive a carteira furtada duas vezes e outros pequenos incidentes que poderiam facilmente ter evoluído pra coisa mais séria.

Tenho me esforçado em aprender a identificar esses estados mentais excessivamente aéreos e a exercer controle sobre eles. Naquela noite, enquanto caminhava na esteira, fui fazendo um esforço mental de me conectar com o aqui e agora, colocando umas músicas que chamam mais à terra, prestando atenção ao corpo e disciplinando os pensamentos para esquecer o livro e focar no contexto ao meu redor. É como uma meditação ao contrário: um movimento de ir descendo a consciência, degrau por degrau, de um plano mais etéreo ao plano mais denso.

Para alguns de nós é tentador permanecer no mundo dos pensamentos, que tem mais leveza, beleza e liberdade. Mas é fundamental conseguir equilibrar os dois pólos. Afinal, todas as experiências – as sutis e as densas, as grandiosas e as medíocres – são parte integrante da nossa jornada de crescimento pessoal.

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Um presente de Shiva

Lendo hoje um texto bonito sobre Shiva, a deidade hindu das transformações, me dei conta de algo que o coração vinha sentindo, mas que a mente ainda não conseguia conceber direito.

Coisa de ano e meio atrás, vinha pedindo em minhas preces ajuda para conseguir uma transformação interna, por não estar gostando de alguns padrões mentais e emocionais negativos aos quais me sentia presa. Pedia por uma tranformação que ignorasse tudo o que o ego pudesse achar melhor e que trouxesse o melhor para o meu crescimento pessoal e o daqueles que me acompanham nessa vida.

Lembro de um dia particular de outono em que, caminhando em direção a uma estação de trem, eu prestava atenção nas folhas secas caídas no chão, escutando o crocitar dos corvos e respirando o ar gelado de fim de tarde. Quando cheguei na estação, na qual nunca tinha estado, notei que havia mais trilhos que o de costume, trilhos largos, que passavam longe das plataformas. Por eles viajavam os trens de alta velocidade, que só parariam muito longe dali.

Com o pensamento distante, mergulhada naquele desejo de transformar a mim mesma, me sobressaltei quando, sem aviso sonoro prévio, passou um desses trens de alta velocidade, tremendo o ar de forma repentina, rápida e intensa. Um calafrio percorreu a minha espinha e, na mesma hora, me lembrei de Shiva. Imaginei que a sua atuação na vida de uma pessoa deveria assemelhar-se à passagem daquele tipo de trem.

Não demorou muito para que depois desse dia eu me descobrisse grávida.

A gravidez e o que se segue a ela não é um evento que começa e termina assim tão rápido, mas é, sem dúvida, muito intenso. Especialmente do ponto de vista psicológico.

Quando amigos recentemente me perguntaram como eu me sentia como mãe, a coisa mais imediata e honesta que veio à cabeça foi dizer que me sinto mais velha. É como se eu tivesse envelhecido uns dez anos em poucos meses. Mas não de forma negativa. Sim, o corpo deforma, as rugas multiplicam e os cabelos embranquecem mais um tanto. Mas as energias, essas mudam para melhor! Não sei como explicar isso. Apenas sinto que apesar de o sono, o ritmo e a casa estarem dez vezes mais bagunçados do que antes, meu ser ficou mais harmonizado, tranquilo e produtivo. Os pés sentem mais o chão, mas sem perder de vista os sonhos e projetos, que já existiam antes da chegada da pequena, e que agora se moldam de forma a incluí-la.

Desde que me tornei mãe, alguma coisa morreu dentro da minha antiga eu. Não de imediato, mas como um processo gradual, ao longo dos meses de gravidez, dos primeiros cuidados com a bebê, do tempo de acompanhar o seu desenvolvimento e de testemunhar a força da vida se desdobrando de forma impressionante.

Difícil definir bem que morte tem sido essa. Tem a ver com tornar-se menos importante para si mesma. Sentir-se saindo do centro do palco da própria vida para passar a ser coadjuvante de um plano maior. E, para a surpresa do antigo ego, o mais engraçado: gostar dessa sensação de preterimento de si.

Sinto a maternidade como um ganho de experiência, de alegria, de amor e serenidade. Um sopro de Shiva em minha vida, e uma transformação para melhor. Um presente e tanto, enfim.

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Love, nature and art: the bastions of spirit

After almost one year blogging in Portuguese, this is my first attempt at writing a post in English. These days, with Google translator and a general heightened linguistic “savvyness”, it should be reasonable to expect a fairly broad reach for posts in Portuguese already, but it doesn’t hurt trying to improve access to ideas I think are worth sharing. The reader will surely find many English mistakes in these attempts, but as long as I manage to get the message across, I am happy.

My previous post was about how responsible I felt for trying to have a better attitude towards personal problems after reading Viktor Frankl’s account on the desolate conditions of concentration camp prisoners. With a gripping sensation in my heart and a need to stop now and then to catch my breath, I moved slowly through his detailed description of how he and his fellow inmates endured – physically and psychologically – the sheer wickedness perpetrated by the guards in the daily life of the camp.

The anguish that overflowed from these passages made it even more comforting to arrive, later on in the book, at one of the most beautiful descriptions of spiritual freedom I ever came across. Because I couldn’t find words better than the author’s to depict the powerful forces that can be unleashed by the spirit to counteract adverse circumstances, I will limit myself to replicate the long quote below.

“We stumbled on in the darkness, over big stones and through large puddles, along the one road leading from the camp. The accompanying guards kept shouting at us and driving us with the butts of their rifles. Anyone with very sore feet supported himself on his neighbour’s arm. Hardly a word was spoken; the icy wind did not encourage talk. Hiding his mouth behind his upturned collar, the man marching next to me whispered suddenly: “If our wives could see us now! I do hope they are better off in their Camps and don’t know what is happening to us.”

That brought thoughts of my own wife to mind. And as we stumbled on for miles, slipping on icy spots, supporting each other time and again, dragging one another up and onward, nothing was said, but we both knew: each of us was thinking of his wife. Occasionally I looked at the sky, where the stars were fading and the pink light of the morning was beginning to spread behind a dark bank of clouds. But my mind clung to my wife’s image, imagining it with an uncanny acuteness. I heard her answering me, saw her smile, her frank and encouraging look. Real or not, her look was then more luminous than the sun which was beginning to rise.

A thought transfixed me: for the first time in my life I saw the truth as it is set into song by so many poets, proclaimed as the final wisdom by so many thinkers. The truth — that love is the ultimate and the highest goal to which man can aspire. Then I grasped the meaning of the greatest secret that human poetry and human thought and belief have to impart: The salvation of man is through love and in love. I understood how a man who has nothing left in this world still may know bliss, be it only for a brief moment, in the contemplation of his beloved. In a position of utter desolation, when man cannot express himself in positive action, when his only achievement may consist in enduring his sufferings in the right way—an honourable way — in such a position man can, through loving contemplation of the image he carries of his beloved, achieve fulfilment. For the first time in my life I was able to understand the meaning of the words, ‘The angels are lost in perpetual contemplation of an infinite glory.’

In front of me a man stumbled and those following him fell on top of him. The guard rushed over and used his whip on them all. Thus my thoughts were interrupted for a few minutes. But soon my soul found its way back from the prisoner’s existence to another world, and I resumed talk with my loved one: I asked her questions, and she answered; she questioned me in return, and I answered.

‘Stop!’ We had arrived at our work site. Everybody rushed into the dark hut in the hope of getting a fairly decent tool. Each prisoner got a spade or a pickaxe.

‘Can’ t you hurry up, you pigs?’ Soon we had resumed the previous day’s positions in the ditch. The frozen ground cracked under the point of the pickaxes, and sparks flew. The men were silent, their brains numb.

My mind still clung to the image of my wife. A thought crossed my mind: I didn’t even know if she were still alive. I knew only one thing — which I have learned well by now: Love goes very far beyond the physical person of the beloved. It finds its deepest meaning in his spiritual being, his inner self. Whether or not he is actually present, whether or not he is still alive at all, ceases somehow to be of importance.

I did not know whether my wife was alive, and I had no means of finding out (during all my prison life there was no outgoing or incoming mail); but at that moment it ceased to matter. There was no need for me to know; nothing could touch the strength of my love, my thoughts, and the image of my beloved. Had I known then that my wife was dead, I think that I would still have given myself, undisturbed by that knowledge, to the contemplation of her image, and that my mental conversation with her would have been just as vivid and just as satisfying. ‘Set me like a seal upon thy heart, love is as strong as death.’

This intensification of inner life helped the prisoner find a refuge from the emptiness, desolation and spiritual poverty of his existence, by letting him escape into the past. When given free rein, his imagination played with past events, often not important ones, but minor happenings and trifling things. His nostalgic memory glorified them and they assumed a strange character. Their world and their existence seemed very distant and the spirit reached out for them longingly: In my mind I took bus rides, unlocked the front door of my apartment, answered my telephone, switched on the electric lights. Our thoughts often centered on such details, and these memories could move one to tears.

As the inner life of the prisoner tended to become more intense, he also experienced the beauty of art and nature as never before. Under their influence he sometimes even forgot his own frightful circumstances. If someone had seen our faces on the journey from Auschwitz to a Bavarian camp as we beheld the mountains of Salzburg with their summits glowing in the sunset, through the little barred windows of the prison carriage, he would never have believed that those were the faces of men who had given up all hope of life and liberty. Despite that factor — or maybe because of it — we were carried away by nature’s beauty, which we had missed for so long.

In camp, too, a man might draw the attention of a comrade working next to him to a nice view of the setting sun shining through the tall trees of the Bavarian woods (as in the famous water colour by Dürer), the same woods in which we had built an enormous, hidden munitions plant. One evening, when we were already resting on the floor of our hut, dead tired, soup bowls in hand, a fellow prisoner rushed in and asked us to run out to the assembly grounds and see the wonderful sunset. Standing outside we saw sinister clouds glowing in the west and the whole sky alive with clouds of ever-changing shapes and colours, from steel blue to blood red. The desolate grey mud huts provided a sharp contrast, while the puddles on the muddy ground reflected the glowing sky. Then, after minutes of moving silence, one prisoner said to another, ‘How beautiful the world could be!’

Another time we were at work in a trench. The dawn was grey around us; grey was the sky above; grey the snow in the pale light of dawn; grey the rags in which my fellow prisoners were clad, and grey their faces. I was again conversing silently with my wife, or perhaps I was struggling to find the reason for my sufferings, my slow dying. In a last violent protest against the hopelessness of imminent death, I sensed my spirit piercing through the enveloping gloom. I felt it transcend that hopeless, meaningless world, and from somewhere I heard a victorious “Yes” in answer to my question of the existence of an ultimate purpose. At that moment a light was lit in a distant farmhouse, which stood on the horizon as if painted there, in the midst of the miserable grey of a dawning morning in Bavaria. ‘Et lux in tenebris lucet’ — and the light shineth in the darkness. For hours I stood hacking at the icy ground. The guard passed by, insulting me, and once again I communed with my beloved. More and more I felt that she was present, that she was with me; I had the feeling that I was able to touch her, able to stretch out my hand and grasp hers. The feeling was very strong: she was there. Then, at that very moment, a bird flew down silently and perched just in front of me, on the heap of soil which I had dug up from the ditch, and looked steadily at me.”

(Victor Frankl in: Man’s Search for Meaning)

However gloomy the circumstances, the spirit can always rise above them. Solace and inner freedom can always be found in love, nature, art and spirituality.

O sofrimento em perspectiva

Qualquer problema que conheci na vida – minha e dos outros – parece irrelevante perto do que descreve Viktor Frankl, um sobrevivente do holocausto, a respeito dos campos de concentração.

Acho difícil ler esse tipo de narrativa e avanço com cautela, porque a cada linha o coração aperta mais e a garganta vai ficando com um nó. A sensação de angústia fica comigo por algumas horas e depois preciso ativamente procurar me desvencilhar dela. O autor é muito sincero nas suas descrições e consegue-se visualizar bem não só o que os prisioneiros passaram fisicamente, como também psicologicamente. A história do Holocausto é conhecida de todos, e envergonha-nos de pertencer a uma raça que foi capaz de canalizar tamanho mal na Terra.

O suplício daqueles seres humanos aprisionados, torturados, humilhados, injustiçados, simbolicamente e factualmente exterminados, fazem a crucificação de Jesus não parecer tão ruim assim. E o que dizer então dos nossos “problemas”? Depois de uma leitura dessas é inevitável pensar em como perdemos tempo e energia com bobagens. Em como, sonambulizados, menosprezamos as coisas mais essenciais das nossas vidas. Em como precisamos acordar e sentir mais, com gratidão, o nosso aqui-agora. Brigar e reclamar menos. Erradicar as tristezas levianas. Perdoar, reconciliar, limpar as pendências emocionais. E uma vez limpo o coração, lutar para manter viva a nossa alegria, assim como fomentar a alegria nos outros. Não nos deixar desencorajar disso por bobagem.

A leitura me fez lembrar de como precisamos lidar com nossos problemas de forma bem mais serena e madura do que estamos fazendo.

Tudo bem que é fácil pensar assim nos momentos em que tudo está relativamente em ordem na vida. Quando estamos sofrendo algum tipo de dor emocional ou física aguda, aquilo toma para nós uma dimensão subjetiva importante, e fica bem mais difícil manter a tranquilidade. E sabendo que a subjetividade é um fator importante, não cabe exigir agressivamente dos outros esse tipo de auto-controle. Terapeutas, por exemplo, precisam manter sempre acesa a capacidade de empatia, para depois, com habilidade, ajudar a colocar as coisas em perspectiva.

Pensando em si mesmo, porém, uma vez colocada em perspectiva a real dimensão do que nos aflige, perto de todas as dádivas de que desfrutamos apenas por viver em tempos de fartura e paz, me parece que temos o dever moral de vigiar melhor nossa própria forma de lidar com os problemas. Temos a obrigação íntima de manter uma rédea firme nas nossas reações às dificuldades do caminho. E se além de nos auto controlar formos um pouquinho mais fortes, somos capazes até de transformar essa compreensão em formas de ajudar os outros, apenas pela nossa atitude melhorada, ou de formas um pouco mais elaboradas e intencionais. Foi o que fez Frankl, que unindo seu background de psiquiatra com a sua experiência de prisioneiro de campo de concentração, criou uma abordagem psicoterapêutica para ajudar as pessoas a encontrarem sentido na vida, mesmo nos mais sofridos tipos de vida.

Não precisamos chegar a tanto, claro. Crescer e tentar ser alguém melhor já é uma grande responsabilidade, e está ao nosso alcance todos os dias. Então, que possamos nunca nos esquecer de empregar esforços na direção dessa simples verdade.

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