Curiosidades do código de trânsito Britânico

A excentricidade mais conhecida do código de trânsito do Reino Unido é a tal da “mão inglesa”, que para o brasileiro se traduz em dirigir na “mão contrária” ao seu habitual. Os controles de pedal são iguais aos brasileiros, mas o motorista se senta no lado direito do automóvel e as marchas são trocadas com a mão esquerda. Nas autoestradas, a via de trânsito normal é a esquerda, e a ultrapassagem se dá pela direita.

Estudando para tirar a carteira de motorista local (a brasileira vale por aqui somente até um ano após a entrada para residir no país) identifiquei algumas outras coisas que para nós brasileiros são bem curiosas, como por exemplo:

– O sentido em que se estaciona o carro não precisa obedecer a mão do lado da rua em que se encontra. Assim, andando pelas ruas, se vêem carros estacionados pra frente e pra trás, no mesmo lado da rua;

– Dentre os veículos de emergência, tem um específico para resgates em montanha, e outro para desarmar bombas;

– Existem quatro tipos diferentes de travessia para pedestre, cada um deles com funcionamento e sinalização de luz diferente (haja memória!);

– Em alguns lugares existem “travessias equestres”, com o botão para o cavaleiro apertar na altura da sela do cavalo;

– Há regras especificando o que fazer caso você esteja dirigindo por uma estrada que esteja bloqueada por um rebanho de ovelhas (parar, esperar e obedecer ao comando do pastor);

– O uso de capacete para motos é obrigatório, exceto para pessoas da religião Sikh, que não podem tirar o turbante por motivos religiosos.

Além dessas deve haver outras, e se com o tempo eu me deparar com mais alguma, acrescento à lista.

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Televisão para crianças

Durante boa parte do dia a televisão aqui em casa fica ligada no canal infantil da BBC, o CBeebies. Minha bebê de 4 meses ainda não entende o conteúdo, mas gosta das músicas, barulhos, vozes e cores que passam no canal. Ela fica uns bons períodos entretida enquanto eu, tentando abstrair e deixar o barulho de fundo, vou fazendo outras coisas, como por exemplo escrever aqui no blog.

Nunca gostei de barulho de fundo pra escrever ou pra ler, com exceção de música calma instrumental – o completo oposto do tipo de barulho que passa no canal da criançada – mas é uma habilidade nova que precisei desenvolver. Estou sempre com os olhos e ouvidos um pouco nas minhas atividades e um pouco na minha bebê.

Dito isso, desde que me mudei de volta pro UK tenho assistido mais televisão do que fazia no Brasil. Ainda grávida, em casa e sem trabalhar, assistia programas jornalísticos, de variedades e documentários, e ficava admirada com a qualidade da produção televisiva daqui.

Com a chegada da bebê comecei a me inteirar da programação infantil, e fiquei encantada com a qualidade dos programas do CBeebies. A maioria deles têm um tipo de estimulação muito bem pensada e produzida, fazendo com que os pais possam deixar seus pequenos curtir a TV na certeza de estar colocando-os em contato com conteúdos enriquecedores e sadios. O canal é admirável pela sua qualidade visual, musical, cultural, congnitiva e de inclusão social. Os apresentadores e personagens são de várias etnias, além de alguns serem também portadores de necessidades especiais, físicas e cognitivas.

Os programas são muito criativos. Alguns dos meus favoritos mostram coisas como bonequinhos fazendo Yoga, desenhos ensinando detalhes de línguas e culturas comumente encontradas no Reino Unido (como Urdu, Hindi, Galês, Francês, Alemão), histórias da cultura local, crianças com necessidades especiais e linguagem de sinais. Especialmente lindo é o programa da hora de dormir, que passa à noitinha, cujas músicas têm um efeito calmante até em adultos!

O CBeebies é voltado para as crianças que ainda não vão na escola, mas nós pais acabamos por aprender várias palavras e detalhes culturais novos também, além de nos divertir. Dá pra perceber que por detrás do CBeebies tem um trabalho cuidadosamente elaborado, resultando numa programação de alta qualidade. Sorte da criançada de poder contar com um canal de televisão assim.

A verdade nem sempre está no fundo de um poço

Certa vez um amigo – cujas opiniões, na época, eu considerava bastante – afirmou com um certo desdém, ao saber do meu signo astrológico, que “aquarianos são superficiais”. A afirmativa, meio em tom de brincadeira, meio em tom crítico, foi daqueles comentários supostamente inocentes, mas que ficam repercutindo na mente, levando a pensar nos desdobramentos do que significa.

Acho que todo mundo tem um certo orgulho bobo do seu signo. “Orgulho”, coincidentemente, é uma das características aquarianas – e aquela frase de alguma forma ferira esse meu orgulho. Até porque ela foi dita justamente numa época em que eu me aprofundava muito, na universidade, numa dissertação de assunto filosófico. Ser chamada de superficial naquele momento parecia uma afronta direta à qualidade do trabalho que eu estava desenvolvendo.

Hoje – anos depois desse episódio – me dei conta de que para mim, a superficialidade tem sim um sentido positivo. Tem a sua importância, e talvez até um efeito curativo.

Explico.

Desde que me entendo por gente tenho um jeito meio observador, meio perguntador a respeito da vida e das pessoas. Sempre gostei de estudar. Apesar de neurotípica, sempre me senti um pouco como uma antropóloga em marte: interessada em entender o meu contexto, mas não muito bem encaixada nele. Mais tarde, nos estudos universitários, frequentemente me via atraída para leituras de cunho mais filosófico e teórico, que me interessavam mais do que os manuais pragmáticos de psicologia aplicada. Era como se as leituras “perguntadoras” me levassem para mais perto das verdades do que as leituras “instrutoras”.

Esse meu jeito continua o mesmo, e nessa saga cheia de perguntas, ocasionalmente chego a algumas respostas provisórias.

O problema é que perguntar demais, aprofundar demais um determinado tema, a partir do intelecto, começa a fazer com que eu leve muito a sério as respostas a que eventualmente chego. Acabo esquecendo que as respostas são parciais e provisórias, e a mente começa a funcionar de maneira obtusa, fundamentalista talvez. Tudo passa a ser visto a partir daquela ótica – daquela teoria, daquela resposta – e o clima psicológico ao meu redor se torna sisudo, pesado. Provavelmente atrai até algumas inimizades e provoca alguns afastamentos. É uma seriedade que vem do excessivo perguntar, que toma proporções exageradas, que me torna mais chata, e que sinceramente, nem combina comigo. É um risco que estou sempre correndo, por causa do jeito perguntador, mas estou procurando ficar mais vigilante quanto a ele. Isto porque percebi que as superficialidades – as coisas da vida que não exigem um profundo pensar – são um contrapeso importante para que minha balança não fique desequilibrada.

Cheguei à conclusão – provisória talvez? – de que doses contínuas e não contrabalançadas de filosofia e metafísica provocam efeitos estranhos e não muito desejáveis em mim. Talvez seja imperícia minha, de não saber navegar no profundo sem me afogar lá embaixo. Mas sinto que há um bom aprendizado em abrir mais espaço, na vida, para o superficial e para o não saber. Existe uma paz em não precisar perguntar.

Não quero e nem consigo me livrar dos questionamentos profundos, mas certamente estou aprendendo a colocar um freio neles. Porque, como li num belo livro de psicoterapia existencial, “a verdade nem sempre está no fundo de um poço”. Às vezes as coisas são mais simples e superficiais do que parecem, e nem por isso, menos belas, verdadeiras, importantes ou necessárias.

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