Uma campanha pela saúde mental

O Reino Unido tem visto nos últimos anos uma forte campanha de sensibilização pública quanto à questão da saúde mental, mais especificamente, um combate ao estigma da loucura. A mensagem básica é que pessoas com problemas psiquiátricos são pessoas como eu e você, apenas vulnerabilizadas por alguma circunstância; que a doença mental pode acontecer a qualquer pessoa e que o preconceito tem efeitos muito nocivos sobre quem já está sofrendo.

A campanha é um esforço conjunto de ONGs da área de saúde mental, e atua em áreas como monitoramento da representação da loucura na mídia, campanhas educativas, entrevistas com pessoas que sofrem de doenças mentais e lobby parlamentar para a causa.

Trabalhei nos anos de 2008 e 2009 para uma destas ONGs e participei do nascimento da campanha, que começou pequenininha, e que hoje tomou proporções importantes. 5 anos depois, percebo a diferença prática que tem feito. Recentemente a rede gigante de supermercados Asda foi forçada pela opinião pública a retirar de venda uma fantasia de “paciente mental” que estava à venda para os festejos de Helloween.

A empresa recebeu vários tweets e cartas manifestando o quanto a associação do sofrimento mental com uma figura de horror era lastimável, e pedindo um retratamento público. A questão foi parar na BBC e a empresa não demorou a se pronunciar, pedindo profundas desculpas pelo lapso, anunciando que retirou imediatamente a fantasia de circulação e que doará uma quantia significativa para uma das principais ONGs que integram a campanha.

É o tipo de resposta institucional que se espera de uma corporação que queira se manter respeitável perante um público exigente. E é o tipo de atitude pública que pode ser desenvolvida com campanhas educativas persistentes e bem executadas.

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De volta ao essencial

Tendo me tornado mãe há pouco tempo, fui levada a lembrar com mais frequência e mais intensidade do período da primeira infância. Começando pelo desejo de comparar semelhanças e diferenças físicas de minha bebê com as minhas próprias, e de antecipar como a sua aparência pode vir a se desenvolver com o tempo, pedi à família que escaneasse e enviasse várias fotos de eu pequena, desde bebê até uns 10 anos de idade.

Olhando essas fotos fui me lembrando de cada vez mais detalhes da época, e essas lembranças culminaram noite passada num sonho bastante vívido. Nele, personagens da época retratada – várias até então esquecidas – reapareceram, numa grande festa, mas uma festa da qual eu fugi por não me sentir nada à vontade.

O cerne deste sonho foi o sentimento estranho do contraste entre a vida no círculo familiar com a vida no círculo social, este último encarnado principalmente pelas interações no colégio onde estudava, o colégio mais tradicional de uma cidade interiorana brasileira na década de 1980. Cidade que como tantas outras se orgulha (?) de sua ascendência alemã, mantendo até hoje uma estranha obsessão com esse seu mito de origem.

Nas fotos de festas familiares, em que também participavam os amigos mais próximos, aqueles de nossa escolha, as crianças exibiam sorrisos francos e uma excitação ímpar, felizes em dividir a simples alegria de estarem juntas em uma ocasião especial – um aniversário, comunhão, páscoa, etc. Havia uma atmosfera de diversão e amizade genuína. Passado o momento de tirar foto, não raro se desfaziam penteados, se largavam sapatos e se afrouxavam laços e roupas para brincar e brincar até o dia acabar, sem maiores preocupações – e por isso com freqüencia alguém saía com um galo na cabeça ou um arranhão no joelho, mas sempre com um sorriso no rosto. Nesses espaços, as pessoas estavam à vontade para serem apenas quem eram.

No ambiente do colégio, ao contrário, comecei a aprender que crianças de famílias abastadas – de preferência loiras e com sobrenome alemão – gozavam de um status diferenciado perante alguns funcionários e professores. Lembro, por exemplo, de como uma professora me tratou quando fiquei doentinha no colégio – com dureza e indisposição – e de como alguns dias depois a mesma professora morreu-se de preocupações com um coleguinha mais branco, mais rico e mais alemão do que eu. Lembro das dinâmicas de segregação sutil que, primeiro demonstradas pelos adultos que cuidavam daquelas crianças, passavam aos poucos a fazer parte da psique das crianças elas próprias. Assim se formavam as panelinhas de acordo com o status social: as “amizades” não eram naturais, e sim forjadas pelas externalidades valorizadas pelos adultos daquela cidade – sobrenome, endereço, carro, cor de pele, profissão e conta bancária. E amizades assim, de sorriso calculado, são muito menos felizes.

No sonho, eu era anfitriã de uma grande festa, muito mais pirotécnica e espetacular do que aquelas simples festinhas de aniversário das fotos de família. Na festa do sonho só apareciam conhecidos do colégio, personagens até então esquecidos, escavados da memória. Eles compareciam para marcar presença e tratar dos seus interesses, mal notando a existência da aniversariante. A festa era um palco de exibição de status, em que aquelas crianças, já corrompidas pelo fetiche da imagem aprendido com os adultos, travavam diálogos arrogantes sobre conquistas materiais, medindo-se umas às outras por critérios externos e parecendo tirar algum prazer disso.

Entristecida com o rumo que a festa tomara e incapaz de me divertir naquele ambiente, resolvi tomar meu próprio rumo, saindo daquele “inferninho” pela porta da frente. Minha ausência na minha própria festa nem foi notada.

À medida que caminhava, era como se o dia clareasse. O ambiente ficava mais claro, mais florido, e aos poucos iam chegando aqueles amigos mais simples, os de sorriso franco, de cabelos desgrenhados e joelhos arranhados.

Eu seguia, feliz, para longe do mundo de aparências e para mais perto do mundo das essências.