Gravidez e parto no NHS

Pausa na vida para a experiência de ser mãe. Minha filha completa essa semana um mês de vida fora do útero, e somente agora começo a conseguir parar por alguns minutos pra colocar em palavras o turbilhão de experiências pelas quais passamos nos últimos meses. Quero relatar em especial minha experiência de ser acompanhada durante a gravidez e parto pelo NHS, o serviço público de saúde do Reino Unido.

Nota: esse post foi escrito de pedaço em pedaço, ao longo de dias, ao contrário dos anteriores que costumavam vir de uma vez só. E também não vai ser adequadamente revisado, então perdão antecipado pelos erros de Português e digitação que o leitor encontrar pelo caminho. É que agora entre uma frase e outra acontecem as mil e uma demandas de um bebê recém nascido, conjugadas com as demandas do meu próprio corpo – comer, ir ao banheiro, tomar banho, escovar dentes, dormir. Tem também as coisas da casa, do dia a dia – mas essas ficaram bem para trás na lista de prioridades. Não é mais possível engatar uma tarefa contínua que dure mais que 15 minutos (isso quando dou sorte!), e a dose de perfeccionismo em tudo que faço precisou cair drasticamente.

Bem, vamos ao relato.

Tive uma gravidez super tranquila e saudável, acompanhada integralmente pelo NHS, do qual não tive, até o momento do parto, razões para reclamar. Pelo contrário, havia várias coisas positivas no atendimento pré natal daqui: acompanhamento sério, consultas e exames efetuados dentro da agenda programada, sem atrasos, em bom nível de detalhamento. Muitos cursos gratuitos e material educativo de alta qualidade, disponibilizado em papel, internet e grupos de apoio. Um ponto negativo foi a falta de continuidade dos profissionais, a cada consulta praticamente era um diferente que me atendia, mas como o prontuário (que a mãe carrega consigo) é bem detalhado, cada novo profissional conseguia sem maiores dificuldades continuar o trabalho do outro. No geral, o padrão foi excelente, especialmente considerando que é um serviço público.

O parto, infelizmente, foi uma história diferente. Os últimos anos têm visto um baby boom aqui nesse país, e isto, junto com uma atual carência de profissionais de obstetrícia (serviço aqui liderado pelas midwives, ou obstetrizes, que têm formação superior em enfermagem obstetrícia), gerou um quadro de hospitais sobrecarregados e equipes desgastadas pela demanda excessiva de trabalho. O resultado é que as midwives (não todas, claro, mas muitas) acabam se dessensibilizando, perdendo um pouco de vista a importância do cuidado humanizado para com as futuras mães e seus parceiros nessa hora crucial, que normalmente envolve extrema dor e bastante ansiedade.

Como minha gestação se prolongava além do esperado (estava com quase 42 semanas completas), fui encaminhada para uma indução de parto natural, que é o procedimento padrão do NHS nesses casos. Tudo corria dentro do esperado e tanto eu quanto a bebê vínhamos reagindo bem à indução, mas a falta de sensibilidade das midwives que me atendiam na fase crítica do parto e a demora em conseguir liberação para transferência à ala de parto acabaram prolongando demais o meu “labour” (palavra em inglês para parto, um verdadeiro labor!), abrindo margem para complicação do meu quadro e gerando a necessidade de uma cesareana de emergência 48 horas depois de ter iniciado a indução.

Eu gostaria de ter tido um parto natural, e cheguei muito perto de conseguir. Não foi o fato de ter feito cesareana que me chateou – na verdade, àquela altura a operação veio como um alívio de toda a situação – mas sim a certeza de que ela acabou sendo necessária por causa de uma certa negligência da equipe que me atendia. Ainda estou para organizar uma reclamação formal do ocorrido, e nesse ponto, teço mais um elogio ao NHS, pois o serviço de reclamação é muito bem organizado: uma profissional da ouvidoria do hospital virá até minha casa na semana que vem para ouvir meu relato e saber os motivos de eu não ter aprovado o atendimento que recebi no hospital.

Todo o follow-up pós natal oferecido pelo NHS também merece elogios. Um ou dois dias depois de receber alta hospitalar, as midwives comunitárias começam uma série de visitas domiciliares para checar a recuperação das mães e a saúde dos bebês, e também para sanar quaisquer dúvidas das famílias. Elas andam pelo bairro carregando todo o equipamento – medidor de pressão, termômetro, balança para pesar os babys, injeções, instrumentos, etc. – e realizam essas visitas, que só se encerram quando elas avaliam que a mãe e o bebê estão em boas condições. Depois de liberados pelas midwives comunitárias, a mãe e o bebê ficam sob os cuidados do health visitor, um profissional de enfermagem com um ano de especialização em maternidade e primeira infância. Esse profissional avaliará periodicamente a criança até que complete 5 anos de idade, momento a partir do qual o responsável passa a ser a enfermeira da escola.

A experiência do parto me abalou bastante emocionalmente. Aos poucos, porém, tenho conseguido organizar em palavras o que antes vinha apenas em lágrimas. Estou deixando o sentimento de chateação para trás e focando mais na relação com minha linda bebê. Ela é uma criança muito amável, esperta, e outros tantos adjetivos bons que não vou reproduzir aqui para não pesar a mão naquela “corujice” que assola todas as mães.

No fim, como muitas amigas diziam, por mais que o parto não tenha sido como se queria – e raramente ele é – tudo o que vem depois significa e marca muito mais, apagando com amor qualquer memória negativa que possa ter restado.

Atualização: Um mês após o parto e algumas visitas domiciliares das midwives comunitárias depois, recebi em casa uma midwife senior, uma senhora que após dedicar a vida à profissão agora é aposentada e empregada pelo hospital como consultora da maternidade. O trabalho dela é identificar as deficiências no sistema e dar o feedback ao hospital. Ela ficou cerca de duas horas conversando comigo e anotando tudo o que eu dizia. Demonstrou conhecer todos os detalhes do meu histórico – inclusive coisas que nem eu lembrava mais – e tomou nota de todos os nomes que eu mencionei, demonstrando saber de quem se tratava. Colocou-se ao meu lado nas reclamações, e disse que iria conversar com os supervisores das pessoas mencionadas para traçar um plano personalizado de melhoria profissional para elas. Para algumas, não era a primeira vez que ela recebia reclamações.

A senhora, uma enfermeira emigrada há muitos anos da Guiana, era extremamente simpática e afável, e pareceu levar bastante a sério todos os meus comentários. Disse que daqui a um mês, quando retornasse de suas férias e tivesse feito os primeiros encaminhamentos, me mandaria um e-mail ou faria um telefonema para me atualizar quanto às providências que foram tomadas. Acredito que de alguma forma a mensagem chegará onde precisa chegar, e isso me deixa mais tranquila para poder virar de vez a página das coisas que não saíram conforme eu esperava. Novamente, e pra fechar a experiência, ponto para o NHS.

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