As Donas Marias

Depois de ler este artigo sobre as implicações da lei das domésticas para as famílias, para o Estado e para o equilíbrio trabalho-vida privada no Brasil, lembrei de Dona Maria (nome fictíceo), uma senhora que conheci quando funcionária de uma prefeitura num interior pobre do Brasil.

Dona Maria vinha sendo acompanhada pelo serviço social da prefeitura e pela justiça por apresentar dificuldades em criar seus filhos, que estavam se envolvendo em problemas de violência e apresentando necessidades de cuidados de saúde não atendidos, caracterizando, aos olhos do sistema, negligência e abandono parental. Quando a conheci, Dona Maria estava prestes a poder perder a guarda das crianças, e meu papel era ouvi-la para avaliar as razões da “sua” negligência. Não demorou para perceber que suas “falhas” como mãe resultavam em grande parte de uma longa história de tentativas frustradas de inserir seus filhos na rede de saúde e educação da cidade.

Encaminhamentos não realizados, falhas grosseiras no atendimento, falta recorrente de vagas em creches e escolas, expectativa de aceitação contente de trabalhos em condição semi-escrava são exemplos de coisas que acontecem às pessoas mais pobres no Brasil. O quadro costuma ainda ser coroado por comentários e tratamentos desmoralizantes, que culpam as Donas Marias por todas as ausências, abusos e imperícias do sistema. No seu lugar, qualquer um começaria a ter muita dificuldade em criar os seus filhos.

Alguns bons profissionais entendiam a posição objetiva e subjetiva de Dona Maria, e trabalhavam para que pequenas vitórias fossem conseguidas nesse quadro desolador, articulando parcerias que pudessem ajudá-la a reverter a situação em que sua família se encontrava. Mas o discurso de muitos que conheciam “o caso” – e que tinham aguma influência sobre ele – era perverso: culpabilizavam Dona Maria por todas as falhas que no fundo eram do sistema educacional, de saúde, trabalhista e judiciário.

Dona Maria e sua “família problemática” eram o ponto onde estouravam todas as precariedades institucionais que o cidadão brasileiro – especialmente o das classes pobres – é forçado a driblar com suas forças individuais.

O caso de Dona Maria era “antigo” e considerado “sem solução” pelos que a conheciam, pois estava sob o escrutínio do sistema há muito tempo, bem antes de eu começar a atendê-la. E acredito que sua família tenha continuado a ser, por muito tempo depois de mim, atravessada por essas autoridades, que ditavam exigências sobre sua vida familiar oferecendo quase nada em troca.

Não cheguei a conhecer o desfecho do seu caso porque a impotência, a frustração e a vulnerabilidade de trabalhar desde dentro de tal sistema fizeram com que eu logo optasse por mudar de trabalho. Acredito que é possível – e alguns bons trabalhadores públicos heroicamente o fazem – estar dentro do sistema para minimamente reverter essas tendências. Mas são necessárias altas doses de resistência, coragem e fé – doses que naquele momento da vida eu não tinha condições de oferecer.

Sempre terei admiração por estes, mas tenho ainda mais pelas Donas Marias. Torço para que leis e debates sociais como este das domésticas comecem a empurrar os brasileiros a rever as profundas reformas a serem exigidas. Primeiramente de si mesmos, nas suas relações cotidianas com a questão de classe, pois é nos pequenos gestos e atitudes que se revela a necessidade de marcar o pobre como alguém diferente e inferior. E em última instância dos governantes e instituições locais e nacionais, encarando-os como nosso reflexo e nossa representação, de quem esperamos grande esforço, caráter e consistência na amenização do abismo social brasileiro.

família pobre brasileira

Saudações florais

Escrevo esse post do quarto de uma pousada ao lado do Bach Centre, na pequena localidade de Brightwell-cum-Sotwell, Oxfordshire, Inglaterra. O centro também é conhecido como Mount Vernon: trata-se da casa onde Dr. Edward Bach fabricava e receitava seus famosos remédios florais na década de 30. Estou aqui por dois dias para fazer a primeira etapa do curso de formação em florais, que é oferecido em três fases algumas vezes por ano, em várias localidades do mundo credenciadas pelo centro.

A fase 1 é uma introdução bem básica aos modos de preparar, auto-aplicar e/ou receitar os 38 remédios desenvolvidos pelo Dr. Bach, com um pouco de teoria e bastante prática. A turma da qual estou participando tem cerca de 12 pessoas, vindas das mais diversas partes do mundo (como Inglaterra, Escócia, Hungria, México, Chile, Itália); todas mulheres na faixa etária de 25 a 45 anos. A maioria parece ter vindo com a intenção de cumprir todas as fases e se tornar terapeuta oficial do sistema Bach; menos pessoas inscreveram-se para conhecer mais de perto a filosofia e as essências sem planos muito definidos do que fazer com o conhecimento depois – meu caso.

Estou bem feliz de estar aqui. Um dos primeiros brinquedos que vagamente me lembro de ter desejado quando criança era um kit da Estrela chamado Alquimia, em que se misturavam substâncias simples para chegar a compostos mais complexos. Por algum motivo, aquilo me encantava, e tendo tido hoje a oportunidade de preparar uma solução sob medida para as minhas próprias dificuldades emocionais, fui remetida diretamente àquela gostosa sensação de fascínio pelo preparo alquímico.

Já quando adolescente, minha dúvida para o vestibular por um bom tempo foi entre psicologia e agronomia: seria mais legal estudar pessoas ou plantas? Por esses e outros motivos, voltar a ter contato mais próximo com o mundo botânico tem sido ao mesmo tempo lúdico, significativo e reconfortante.

Devo apenas dizer, sob o risco de estar sendo precipitada, que mesmo admirando e acreditando nos princípios curativos das plantas e das flores, o pouco que aprendi hoje me fez pensar num aspecto da utilização dos florais que, confesso, me incomodou um pouco: o risco de alguém se tornar altamente floral-dependente, de uma forma desengajada do processo de auto-conhecimento. Em alguns casos parece acontecer uma transferência da responsabilidade pelo crescimento pessoal para a garrafinha da solução, o que no longo prazo não surtiria efeitos sustentáveis. Notei isso através de alguns relatos, por exemplo, de pessoas dizendo que há muitos anos não saem de casa sem determinadas garrafinhas na bolsa, ou que têm feito uso crônico e intensivo dos florais para as situações mais corriqueiras da vida.

Quero crer que esse é um risco que o curso aborda em algum ponto da formação, e que pode ser trabalhado e evitado por um terapeuta responsável. O sistema preza pela simplicidade, o que é bom e faz sentido porque permite o seu amplo alcance. Mas para algumas pessoas isso parece significar uma licença para lidar com problemas emocionais complexos através de soluções mágicas, negligenciando as indispensáveis doses de auto análise que esse tipo de esforço requer.

Independente disso, a experiência como um todo está sendo ótima. O curso em si é pessoalmente e profissionalmente enriquecedor, e está sendo bem legal realizá-lo na atmosfera da pequena casa e do singelo jardim onde o sistema foi concebido e consolidado. Parte das matrizes dos remédios é fabricada nesse local até hoje, colhendo-se as flores do jardim nas devidas estações e preparando as matrizes à moda original. A beleza bucólica do lugar é encantadora, e as energias das plantas e flores são altamente revigorantes – especialmente num dia fresco e ensolarado de primavera como foi o de hoje.

Abraços, com a energia das flores, para os amigos e leitores do blog.

water violet bach remedy