Quando a compreensão vira omissão

Existe uma diferença entre ser compreensivo e ser omisso, e às vezes é bem difícil achar o ponto de equilíbrio entre estas duas posturas. Na última aula de psicoterapia discutimos uma situação real em que uma colega, que participava como cliente no exercício prático de terapia, dizia estar prestes a fazer uma escolha de vida que eu, conhecendo um pouco da sua história, percebia como sendo péssima para ela. Era, aos meus olhos, uma espécie de fuga ilusória que iria desembocar, lá na frente, no mesmíssimo problema do qual ela tentava fugir. Seria ainda pior, pois a escolha tinha implicações éticas duvidosas e ela voltaria ao problema original com o “bônus” do sentimento de culpa por ter prejudicado alguém.

Um outro colega estava atuando no exercício como terapeuta desta pessoa, e eu era uma das observadoras da sessão. O colega-terapeuta conduziu a sessão, ao meu ver, de modo completamente omisso, fazendo apenas perguntas abertas e deixando a pessoa divagar por conta própria até chegar bem perto de concluir que aquela sua ideia era ótima para o seu projeto de vida. Eu, de observadora, me contorcia na cadeira, com uma baita vontade de interferir. Ao final, nos meus comentários, coloquei que discordava da forma com que a sessão fora conduzida, e que achava que o terapeuta deveria ter apontado claramente o problema que seria a pessoa tomar aquela decisão. O grupo se posicionou contra mim dizendo que não é papel do terapeuta dar a sua opinião sobre o que o cliente deseja fazer. Argumentaram que como amigos também falariam o que eu queria falar, mas não como terapeutas.

Juro que não entendo isso. As pessoas devem sim ser deixadas livres para escolher, mas se algum cliente ou amigo – não importa – me revela algo que na minha avaliação vai ser prejudicial para ele(a), que não esper de mim uma sanção para a sua atitude. Existe a hora de silenciar e a hora de dizer claramente o que se pensa. Mesmo a atitude compreensiva, que é peça-chave de uma boa terapia, tem um limite, pois às vezes quem cala pode estar simplesmente endossando um grande erro.

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Mudança: um mergulho em praticidades

Desde que retornamos a Londres estávamos alugando um quarto na casa de uma amiga, e agora nos mudamos para um flat não mobiliado. Assim como em outras fases em que me mudei, a semana que passou foi um período em que as praticidades ganharam o centro das atenções. Quando você se muda para um lugar apenas com roupas, sem possuir nem uma colher de cafezinho, os requisitos para tocar uma vida normal deixam de ser banais e saltam aos olhos: o valor de uma cadeira, de uma mesa, de uma cama de verdade. Facas, panelas, pratos e xícaras. Todos objetos desenhados ao longo do tempo pela inteligência humana para tornar nossa vida fácil como ela é hoje. Sofá… sofá é um luxo, gente! Agradeçam a existência do seu.

Não sou das pessoas mais práticas que conheço. Por isso, a última semana tem sido um banho de mundo real para mim, envolvida que fiquei 24 horas por dia com a necessidade de limpar e rechear uma casa para torná-la modernamente habitável. A primeira fase, que durou uns 3 dias, foi a faxina. Muitas casas aqui têm carpet – assim como as casas brasileiras na década de 80 – e existe uma série de procedimentos para lavar e limpar bem o carpet usado por inquilinos anteriores. Desde aprender qual o produto e a máquina certos, tudo é uma aventura. Limpar banheiras – outra peça comum nas residências inglesas – também tem suas particularidades, assim como remover “limescale”, que é uma crosta que se acumula nas peças de metal devido à química da água reciclada que circula por aqui.

Quanto à mobília e utensílios, ainda faltam vários itens, grandes e pequenos, mas aos poucos o novo lar está tomando a forma que queremos. O início é um exercício de criatividade: um saco de lixo forte é um substituto barato para uma mala; uma caixa de papelão quebra o galho como mesa; um lençol dá uma excelente cortina provisória. Cada nova aquisição é uma pequena alegria, especialmente para o corpo. As costas reclamam feio por ter de dormir no colchão inflável e usar o computador no chão enquanto não chegam a cama e a escrivaninha. Também não é moleza carregar os itens comprados – alguns bem pesados – sem carro. Os cinco minutos que separam nosso flat do ponto de ônibus mais próximo parecem uma eternidade quando se está carregando coisas pesadas!

Apesar disso, essa imersão nas coisas “pé no chão” me fez muito bem. Representou uma folga daqueles estados de espírito reflexivos, cheios de planejamentos e quebra-cabeças mentais que provocam o seu tipo específico de cansaço. O cansaço das coisas práticas é bem físico e, assim como um bom exercício na academia, relaxa a mente. Muitas mulheres da minha geração torceriam o nariz pra essa constatação, mas afirmo sem medo de errar que faxina e arrumação também têm o seu valor. Para homens e mulheres igualmente.

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Conversando com culturas

Uma definição simples de cultura é o compartilhamento de referências sociais e psicológicas entre um grupo de pessoas. Grupos culturais podem ser delimitados pelo viés da geografia, da biologia, da religião, da história e muitos outros ângulos. Além disso, podemos também pensar que cada ser humano é feito de relações únicas que estabelece com o corpo, com o ambiente, com os outros, consigo mesmo e com a espiritualidade. Nesse sentido, uma só pessoa já pode ser vista como um universo cultural diferente – que o digam os casados!

Todos nós estamos expostos a encontros interculturais cotidianamente. Eles se dão não só através da mídia e das artes, mas sobretudo nas interações corriqueiras com pessoas vindas de diversos lugares e criadas sob a influência de diversos costumes. Esta é a regra, e cada vez mais o será, neste nosso mundo que se globaliza rapidamente. Mas o fato de estarmos expostos aos encontros interculturais não significa que estejamos abertos para absorver lições e tirar crescimentos pessoal dos mesmos. O mais frequente, aliás, é passearmos pela vida analisando tudo e todos a partir de pontos de vista que, com nossa permissão indolente, cristalizaram-se em nós. Sofremos – e fazemos sofrer – com a diferença, e ansiamos pelo conforto do igual.

O contexto da imigração é um dos cenários possíveis – mas nem de longe o único – para exercitar a abertura aos encontros interculturais. Nele, ficar fechado nas próprias referências leva ao isolamento e à tristeza da solidão, pois não há muitos “iguais” ao seu redor para oferecer o refúgio da familiaridade. Quando se mora em outro país – e quanto mais culturalmente distante, mais radical talvez seja a proposição – a diferença lhe é “esfregada na cara”, mesmo quando você não estava afim ou apto a percebê-la por esforço próprio. E é preciso de alguma forma lidar com ela para poder tocar a vida. O exemplo mais básico disso é o da comunicação numa segunda língua, quando uma conversa boba – ou pior, importante – qualquer precisa continuar, apesar de você não ter entendido alguma palavra-chave, ou não ter sido entendida. Nessas horas é preciso esquecer o orgulho, improvisar e seguir em frente.

Os chacoalhões da imigração atingem em cheio nossa inércia consciencial e as identidades que construímos, que passam a ser vistas com um olhar bem mais perspectivo. Foi na Inglaterra que aprendi, por exemplo, que não sou branca, quando um policial inglês riu da minha cara ao me escutar me auto-descrevendo desta forma. Em boa medida, continuar sendo a mesma pessoa não é uma escolha, ao menos não uma sustentável no longo prazo.

A mesma lógica pode ser transposta para o encontro com a diferença em geral. Imaginemos uma uma escala que vai do extremo de “continuar tendo aquela velha opinião” ao extremo de “dissolver-se na coletividade de diferenças”. A globalização e a evolução têm nos empurrado, em qualquer contexto – não sem resistência e nem sem problemas – para a segunda alternativa.

Como nenhum extremo parece saudável, o ponto de equilíbrio precisa ser encontrado em valores essenciais que funcionem como uma base a partir da qual a exploração da diferença só acrescentará riqueza e crescimento pessoal e coletivo. Gosto de pensar que caminhamos rumo a um estado de espírito em que a diferença é acolhida e entendida como uma superficialidade sob a qual estão escondidas as verdadeiras essências humanas. Os encontros interculturais – ou, simplesmente, humanos – seriam tanto mais pacíficos e enriquecedores quanto mais conseguíssemos enxergar a unidade sob nossa aparente diversidade.

unidade na diversidade

Navegando pela psicologia e pela espiritualidade

Tendo terminado de escrever, há pouco tempo, uma dissertação sobre a dimensão espiritual da existência humana – um tema de importância central para mim – segundo a concepção da psicoterapia existencial, pensei em dividir aqui alguns detalhes do caminho que me conduziu ao curso que estou fazendo, na Inglaterra, sobre essa abordagem. A dissertação em si posso até vir a compartilhar no futuro, mas prefiro esperar o feedback dos professores para descobrir até que ponto meu entendimento do assunto foi acurado, ou então influenciado por aquilo em que quero acreditar: que essa abordagem não só valida a espiritualidade como também abre espaço para a livre expressão dos entendimentos espirituais que nós terapeutas e nossos clientes possamos ter.

O tema me é caro em função das amarras ideológicas – basicamente, uma concepção materialista de homem, que exclui e até menospreza a questão espiritual – que permearam meus anos de formação no Brasil, e que me levaram por caminhos profissionais causadores de grande desequilíbrio psicofísico.

A espiritualidade esteve presente na minha vida desde o nascimento até os primeiros anos de faculdade, a partir dos quais se seguiu um período de grande ceticismo e materialismo. Claro que além de ter sido uma forte influência externa, a adesão a uma visão materialista-cética do ser humano foi uma concessão, um erro de minha própria parte.

Considero estes anos de formação materialista um “período opaco”. Nele houve muito aprendizado e desenvolvimento intelectual; adquiri títulos e méritos acadêmicos, que tiveram seu papel social de abertura de portas profissionais, mas acabei me tornando uma pessoa pior e mais fraca em muitos sentidos. Julgamento arrogante dos caminhos alheios e períodos recorrentes de grande estresse e ansiedade com repercussões físicas sérias foram se acumulando em meu ser. O desconforto existencial cresceu sutilmente, até passar a ser meu modo de funcionamento padrão.

Esse processo aconteceu ao longo de mais ou menos dez anos, até chegar um momento em que uma espiral de eventos negativos ao meu redor me levaram quase ao fundo. Ao “período opaco” seguiram-se cerca de dois anos de “golpes da vida” aos quais, em função de ter aberto mão de valores e saberes tão importantes para mim, eu não soube como responder. Afastada da espiritualidade, eu tinha perdido completamente meu centro de força interior. O resultado foi bastante confusão, tristeza e desequilíbrio físico-emocional.

A página turbulenta só começou a ser virada quando, por conta de encontros e reencontros importantes comigo mesma e de alguns acontecimentos, a espiritualidade voltou a fazer parte de minha atenção cotidiana. Não aderi a nenhum grupo ou ideologia específica, mas fui reestabelecendo minha conexão com o divino através de leituras, músicas, pessoas, lugares e experiências luminosas. Bastante auto-observação e reflexão – e um esforço descomunal para parar de me sentir vítima da vida e voltar a ser uma pessoa mais leve – junto com estes encontros felizes acabaram por naturalmente me reconectar à fonte espiritual. Não foi fácil nem automático, mas aos poucos fui voltando a me sentir uma pessoa forte. Aprendi a ser auto confiante sem subjugar os outros e recuperei a coragem seguir em frente sendo eu mesma. A paz e a tranquilidade voltaram a ser meu estado homeostático – obviamente perturbável vez ou outra, mas nada que hoje eu não consiga driblar sem perder meu próprio centro.

Coincidentemente – ou não – a estas mudanças internas positivas começou a se seguir uma chuva de presentes e boas surpresas da vida. Melhor dito, antes os presentes estavam ali – eles sempre estão – mas eu é que estava muito ensimesmada e cega para percebê-los. E aqui retorno ao ponto que me levou originalmente a escrever esse post: um destes presentes foi descobrir um pequeno ninho de treinamento profissional sério e reconhecido em psicoterapia na Inglaterra (onde eu havia decido voltar a morar sem saber o que poderia fazer profissionalmente) no qual a espiritualidade é, se não estimulada, ao menos muito bem aceita.

Quem lê isso pode estar pensando: mas existem tantos locais sérios de treinamento para terapias espiritualistas por aí, porque teria sido tão surpreendente e especial encontrar este ninho? É uma questão de encaixe pessoal. Em primeiro lugar, não existem tantos assim aqui na Inglaterra. Em segundo, tenho uma preocupação em equilibrar o conteúdo do treinamento com o seu poder de entrada social no mercado de trabalho. Em terceiro, e o mais importante ponto, eu não gostaria de abraçar, no atual momento, um caminho espiritualista que descartasse as técnicas e saberes da psicoterapia tradicional. Isto porque além de ter sido meu principal treinamento, não considero que tenho nenhum tipo de habilidade espiritual especial que me permita abandonar as técnicas “humanas”.

Acredito que minha força profissional reside nos métodos mais tradicionais de presença, escuta e conversa, com base nas tramas da realidade física, e por isso as coisas que aprendo na psicoterapia tradicional são de grande valor para mim. Mas hoje, com o filtro do entendimento espiritual da condição humana ligado de forma perene, quero seguir um caminho que seja uma boa síntese dos meus valores espiritualistas com aquilo que me sinto capaz de realizar. Os desdobramentos desse caminho-síntese ainda são uma incógnita, só que isso não me aflige mais. As incertezas da vida, que antes me provocavam grande medo, agora são vistas por mim com uma espécie de curiosidade feliz.

Sabedora de quais valores me fortalecem e me guiam e realista quanto aos meus potenciais, parece que encontrei um bom lugar para me desenvolver profissionalmente. Vamos ver se o feedback da dissertação e o progresso ao longo do treinamento confirmarão isso, ou se me instigarão a rever os planos e reajustar mais uma vez as velas.

chegando no cais